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Prêmio de Consolação



"Precisamos conversar", disse à namorada, que assistia Game of Thrones.

"Espera, é o último episódio da temporada", disse a moça sem olhar o rapaz que estava em pé perto da porta.

"Não dá mais. Não tem como continuarmos juntos", disse ele, em pé com os braços cruzados.

"O que?" - disse, desligando a TV.

E ele começou a falar:

"Quando começamos a namorar, eu sabia muito bem o motivo de você estar sozinha: você foi abandonada pelo noivo que resolveu te trocar pela sua amiga, e ainda fez questão de postar no Facebook que havia te trocado. Quando te conheci você era uma mulher magoada, tomada pela dor da traição. Eu me acheguei a você como um amigo, você lembra? Conversei com você, te aconselhei, por várias vezes enxuguei lágrimas suas enquanto dizia que você iria superar essa. Até que um dia, enquanto víamos um filme juntos no meu quarto, nos deixamos levar pelo momento e só demos conta do que havia acontecido na manha seguinte, quando acordei e vi você nua na minha cama e suas roupas no chão, por cima das minhas. O que eu senti quando olhei você dormindo como um anjo foi mais do que culpa por ter transado com a amiga decepcionada. Pelo contrário, a última coisa que senti foi culpa. Naquele momento eu descobri que te amava. Quando te vi dormindo e suspirando como um bebe que acabou de pegar no sono eu tive a certeza de que te amava mais do que eu podia explicar para mim mesmo, mesmo sabendo que pra você eu era apenas o "amigo fofinho" que te ajudou na sua decepção amorosa. Preferi não te dizer nada sobre o que eu sentia, lembra?

Passaram-se os dias e cada vez ficava mais difícil esconder o que eu sentia. Onde eu ia eu via seu rosto, sentia seu perfume, ouvia sua voz. Seu nome estava presente por todo canto. Eu me sentia um completo imbecil apaixonado. Resolvi te falar do que eu sentia, mesmo correndo o risco de ouvir um 'não' e ainda perder sua amizade. Você me disse que sentia muito afeto por mim, mas ainda não havia esquecido seu noivo, que o amava e pensava nele todos os dias. Então eu, num momento de fraqueza, disse que estava disposto a te ajudar a esquecer seu noivo. Você não respondeu, mas o abraço, o beijo e a noite que tivemos (a segunda) foram como um 'eu aceito'. Daí começamos nosso 'romance', se é que posso chamar assim. Contei para todos que conheço que estava namorando a mulher mais incrível da minha vida. Resolvi esconder os fios de cabelo brancos e fiz regime. Até em academia me matriculei, tudo isso motivado pela alegria de ter você como meu amor. E quanto mais eu me dedicava a você, menos eu sentia o retorno da sua parte.

Por várias vezes você me chamou pelo nome do ex-noivo. Em algumas você se corrigiu, em utras talvez nem tenha percebido. Eu perdoei, já que estávamos no começo e você ainda não havia se recuperado totalmente do relacionamento anterior. Em todas as nossas conversas você citava algo sobre ele. E se desculpava, dizendo que estava se esforçando para me amar do jeito que eu merecia. O tempo passou - um ano, diga-se de passagem - e eu me entreguei por completo. Mas você ainda me chama pelo nome do ex. Ainda fala nele. Ainda tenta me fazer gostar das músicas que ele gostava. Já se passaram um ano e você ainda não o esqueceu.

Então eu decidi que não dá mais. Sim, talvez você tenha se esforçado, mas você não o esquece, e eu não quero ser seu prêmio de consolação, não quero ser um trofeu de vice-campeão. Se depois de um ano você ainda não se convenceu de que seu ex não te quer mais e não consegue levar a vida em frente, sinto dizer mas não posso esperar mais.  Ou eu tenho você por completa, corpo, alma e coração, ou prefiro não ter nada. Se é pra sofrer, prefiro sofrer sozinho do que com uma mulher que não me ama por completo".

Tendo tido isso, abriu a porta e saiu. Ligou o carro e foi embora. Ela o olhou pela janela, ciente de que aquela seria a última vez que o veria novamente. Foi bom enquanto durou ter o Carlos por perto.

Aliás, Carlos não. Carlos é o nome do ex. 

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