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Maria




Houve um tempo em que Maria havia desprezado as pessoas que queriam sua amizade.

Em nome de certos princípios morais que ela nem sabia ao certo se valiam a pena ser seguidos, Maria desprezou as pessoas. Preferia viver de acordo com uma certa crença estranha de que todas as pessoas eram inferiores a ela. Sim, Maria era arrogante. Para ela, todos eram seres preguiçosos que queriam apenas as coisas de um jeito fácil, enquanto ela sim dava realmente o devido valor à vida. Ela preferiu não se misturar. Enquanto todos conversavam, Maria reprimia as risadas e condenava toda aquela alegria. "Enquanto vocês conversam e se distraem o mundo está girando, e a vida está passando", dizia ela em tom de reprovação. Aos poucos, as pessoas passaram a se afastar de Maria. Diziam que qualquer pessoa no mundo conseguia ser mais agradável do que ela. E Maria não ligava, pois achava melhor não ter por perto gente que queria apenas "empurrar o mundo com a barriga".

Mas as pessoas se foram. Cada um dos antigos conhecidos tomaram seu rumo na vida. Os rapazes que viviam olhando os seios fartos de Maria se cansaram e foram namorar outras garotas. As amigas que tentavam sempre comentar o que tinham feito na noite anterior com o namorado foram embora. Os amigos foram trabalhar. A vida se foi. E Maria ficou.

Maria criticou tanto a infantilidade de seus amigos que esqueceu que dentro dela havia uma criança. Defendeu tanto o trabalho que se esqueceu que trabalhar é apenas a consequência, não a causa. Defendeu tanto a maturidade que se tornou uma pessoa rígida e fria. Maria queria tanto não perder tempo que não o aproveitou em nada. Defendeu tanto a vida que se esqueceu de viver.

Agora Maria descobriu que rir com amigos não é apenas coisa de gente preguiçosa e desocupada. Descobriu que uma noite com os amigos numa mesa de bar pode ser mais sagrada que qualquer culto religioso. Agora Maria sabe da importância de se viver em comunidade. Mas só agora, que Maria se tornou uma pessoa solitária. Maria sabe na pele o significado da palavra tédio. Sem querer, Maria descobriu o quanto a vida pode ser sem graça quando você não tem pessoas por perto. Descobriu como é ruim você não ter a quem ligar, a quem convidar para ir no cinema, a quem desejar feliz aniversário, a quem parabenizar, a quem contar suas vitórias. Maria descobriu enfim que inferno não é um lugar onde habitam demônios. Inferno é a ausência de pessoas.

Maria descobriu o significado da palavra solidão.

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