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Como é fazer terapia?




Nós brasileiros não temos o hábito de construir sótãos em casa, mas a figura do sótão é bem interessante: o lugar entre o teto e a cobertura de telhas, destinado a tubulações, caixa d’água, instalações elétricas e outras estruturas necessárias para o funcionamento da casa. É geralmente um lugar de difícil acesso, escuro, sem ou com pouquíssima ventilação, isolado do convívio familiar, escondido de tudo e todos, para onde raramente vamos e nunca levamos ninguém (alguém convida o amigo para conhecer o sótão de casa, algo como “oi amiga, você vai adorar meu sótão”?).

O sótão quase sempre tem a função de “depósito” da casa, onde você guarda todo tipo de tralha e cacarecos: coisas que não vai usar mais, mas que não tem coragem de jogar fora, coisas que te trazem boas ou más lembranças, coisas que foram úteis um dia, coisas que pensa que ainda pode usar numa emergência, coisas para doação, mas que nunca são doadas de fato, coisas e mais coisas com as quais você não quer se encontrar diariamente, mas não consegue se desfazer. Aquele móvel velho que foi presente de casamento, aquele vaso de plantas que veio da sua tia-avó, o abajur importado que já não funciona há anos, a enciclopédia Barsa que você usou para o exame de admissão no grupo escolar dos anos 70, o livro de poesias antigo, a decoração infantil do quarto do seu filho que agora tem 30 anos, seus cadernos do tempo de faculdade, o guarda-chuva que tanto te serviu mas que não para mais fechado, o material de eleição do Lula de 1989, o jogo de xícaras já sem alça e cheias de trincos que sua amiga te trouxe da Espanha em 1999. Coisas velhas, coisas antigas.. Simplesmente deixa lá no sótão. Não usa, mas não joga fora; sabe que está lá. Vai que precisa algum dia, né? 

O sótão não é lugar onde se visita com frequência. Aliás, a proposta é exatamente essa: um espaço ali, dentro da sua casa, mas para onde você vai o mínimo possível. Só entra para colocar alguma “nova” tralha que vai se juntar às outras já guardadas lá. Entra, deixa a tralha nova, dá uma olhada rápida nas antigas, fecha o alçapão e volta para a vida normal em família, enquanto o sótão volta a ser o local escuro e sem vida de sempre. 

Mas aí uma hora você percebe que o sótão está cheio demais. Você mal consegue andar por entre as tantas coisas velhas acumuladas ao longo dos anos, e chega a uma conclusão: precisa fazer uma limpeza urgente. Algumas coisas precisam sair dali logo. Você até tem boa vontade e tenta se desfazer de algo; mexe em uma e outra caixa, joga uma embalagem velha fora, mas percebe que limpar seu próprio sótão é mais difícil do que parece, e que sozinho não vai conseguir. 

E chama uma pessoa para te ajudar. 

Não só te ajudar, mas essa pessoa tem total liberdade para indicar o que deve ser mantido e o que deve ir para o lixo no seu sótão. Essa pessoa vai, junto com você, vasculhar suas tralhas, relembrar com você detalhes do passado envolvido em cada objeto encontrado, opinar sobre coisas que aconteceram e os motivos que te levaram a guardar aquela tralha, e te ajudar a encontrar o melhor destino para essas coisas que você não usa mais. 

Aos poucos, com o tempo, você percebe que o sótão vai ficando mais limpo. Num dia você consegue enxergar o piso do sótão, há tanto tempo encoberto de poeira. Num outro percebe que já se desfez de muita coisa velha, e começam a sobrar cantos vazios. Quando se dá conta, já está fazendo planos para o sótão, pois a quantidade de coisas ali guardada é tão pequena que já não justifica mais um espaço bom como aquele servir apenas como depósito de quinquilharias. Começa a planejar uma escada que suba ao sótão, uma boa localização para uma janela, uma boa iluminação e, quem sabe, com um pouco de investimento aquele espaço não vire um confortável quarto para visitas. 

E então você vê pela primeira vez seu velho sótão cheio de tralhas virar um espaço bonito, limpo e útil. 

Isso é fazer terapia!

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