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Saí com uma garota de programa | Desconstrução #1




Wes Talaveira


Desconstrução é a nova série do Quem Foi Que Disse, onde vou compartilhar experiências e impressões pessoais ao conhecer ou viver coisas nem sempre aceitas pelo "senso comum". A ideia é mostrar como nossa opinião pessoal e nossos preconceitos interferem na forma como encaramos - e julgamos - as coisas e pessoas. 

E quer alguém que seja mais alvo de críticas da sociedade do que uma garota de programa? Pejorativamente chamadas de "prostitutas", elas já foram alvo de uma série aqui do blog, a Profissão Prostituta, série que debateu em 2016 a legalização da prostituição e que foi a campeã de visualizações em todos os 10 anos do blog. 

Uma das entrevistadas foi a acompanhante Isa Bitencourt, que deu aqui no blog verdadeiras lições sobre a forma como encaramos não só a garota de programa, mas a mulher em si. A inteligência e fluência dela me despertaram a curiosidade, a ponto de, depois de o post ter sido publicado, eu entrar em contato com ela para saber sobre o atendimento. Com toda a simpatia que eu já havia conhecido antes ela explicou sobre valores, local, o que acontece e não acontece no atendimento, e etc. Tomei coragem e, depois de questionar todos meus "valores morais", marquei com ela. Ainda pelo WhatsApp avisei que tenho psoríase, pois ela iria ver as lesões feias que tenho pelo corpo. Ela entendeu e não se incomodou com isso.

Quinta feira a noite, por volta das 20:00, cheguei ao flat nos Jardins onde ela atende. Dei meu nome ao porteiro, que entrou em contato com ela e, em menos de 5 minutos, me autorizou subir. A cada andar que o elevador subia as borboletas do meu estômago pareciam fazer uma Guerra Fria. Comecei a suar de nervosismo. Quando chegou ao andar dela, hesitei em sair do elevador. Segurei a porta por alguns segundos antes de aceitar que eu estava ali para transar com uma garota de programa. No perfil do Twitter e em seus anúncios ela não mostra o rosto, então por mais que as fotos dela fossem ótimas, ainda não sabia quem eu iria encontrar lá. Saí e logo dei de cara com a porta do flat. Toquei a campainha. Ouvi o barulho da chave girando na fechadura. A porta começou a abrir. Vi a mão dela no 1 segundo em que a porta se abriu. 

A Isa Bitencourt estava lá. Eu estava lá. Na próxima uma hora, eu iria transar com uma garota de programa pela primeira vez na minha vida. 


Isa Bitencourt
"Linda" é pouco para descrever a pessoa que eu via na minha frente. Usava um vestido preto e um salto que não foi o suficiente para disfarçar os 1,58m de altura que só a deixavam ainda mais atraente. Os cabelos longos muito bem cuidados completavam o visual incrível que revelavam ao mesmo tempo a mulher mais gostosa e sedutora que já encontrei na vida e uma menina simples, de sorriso doce. Me recebeu com a mesma simpatia demonstrada na internet; sorriso farto e sem falsidade.  Brincamos com o fato de eu ter tentado marcar algumas outras vezes e nunca dar certo por conta dos horários dela sempre concorridos. Me deu um selinho e, ao fechar a porta, ofereceu água. Tremia tanto de nervosismo que quase deixei o copo cair e ela logo percebeu, pois riu como quem queria dizer "fica calmo". Entreguei para ela o envelope com o valor do programa pago em dinheiro vivo e dei também o presente que comprei para ela: um livro do Bukowski. Estava pronto para uma reação de desdém, como já aconteceu em outras vezes em que presenteei pessoas com livros, mas pra minha surpresa ela mostrou ter adorado o presente. "Já ganhei de tudo, mas livro é a primeira vez", ela disse, e emendou com "as pessoas pensam que por ser garota de programa a gente não gosta de ler, mas eu amo ler". Pronto, ela já tinha ganhado minha simpatia e eu estava mais à vontade. Fui tomar um banho e, quando saí do banheiro enrolado apenas com a toalha, ela estava sentada na cama lendo o livro. 

Aquela talvez tenha sido a uma hora mais rápida da minha vida, mas ao mesmo tempo, a mais prazerosa. O tempo inteiro a simpatia dela fica evidente. Ela faz de tudo para agradar, e de forma natural, sem mecanismos. Não diferencia clientes pela beleza física - eu estou a anos-luz do padrão de clientes ricos e bombados que ela deve atender todos os dias. Conversamos sobre várias coisas: minha psoríase, a faculdade que ela faz, minhas leituras preferidas.

Ao vir embora, ela agradeceu novamente pelo livro e, pela foto que postou no Twitter minutos depois de eu ter saído, ela realmente deve ter gostado. Espero que Bukowski faça a ela o bem que faz a mim. 

Saí de lá com algumas respostas, muitas perguntas, várias ideias desconstruídas e alguns tabus quebrados. O primeiro tabu foi o do sexo sem amor. Sim, sexo não precisa de amor para ser bom. É possível sentir muito prazer com uma pessoa que você não tem a obrigação de devotar amor. Outro tabu foi o do trabalho das garotas de programa. Elas são nada mais que profissionais que vendem seu conhecimento e habilidade para outras pessoas. Assim como um médico vende seu conhecimento em medicina para curar doentes, como um ator vende sua habilidade em dramaturgia para entreter uma plateia, uma acompanhante vende sua habilidade com o sexo e sua beleza física para satisfazer pessoas que procuram por sexo. Parece frieza? Vamos voltar então ao primeiro tabu: sexo não precisa de amor para ser bom. 

Sexo é entretenimento, é diversão. E não preciso amar uma pessoa para me divertir com ela. 

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