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Minha primeira vez num baile funk | Desconstrução #4




Wes Talaveira

Esse é um post que entrou pra série "Desconstrução" por acaso. Isso porque eu nem sabia, na verdade, que a balada que eu iria naquele dia era funk. Vi no Instagram que uma conhecida minha vinha organizando todas as sextas uma balada em Pinheiros e resolvi conhecer. Deixei o nome na lista e semana passada fui lá. Cheguei tarde, quase as 2 da manhã, pra não ter de passar pelo constrangimento de ficar sozinho na fila. 

Quando cheguei ouvi o pancadão e pensei que fosse uma das músicas da noite. Tocar funk é comum em qualquer balada de músicas diversas. Mas o funk continuou na segunda música. E na terceira. E cada vez mais as novinhas iam até o chão, sarrando e rebolando. E o DJ não parava mais. A cena seria perfeita para um programa de humor: eu, de camiseta polo preta e cara de nerd de The Big Bang Theory, estava num baile funk. 

Não sou crítico do funk, pelo contrário. Acho que todos os estilos musicais são válidos e tem seu público, até o funk. Até tenho alguns salvos no meu celular. Gosto da MC Pocahontas, DJ Sapão por exemplo. Mas esse são a “superfície” do funk, se é que podemos dizer assim. O funk paulistano – que já tem as mesmas proporções e rende o mesmo dinheiro do carioca – é muito maior e mais “complexo”. 

O que você vai ler são as impressões de um cara - no caso, eu - que curte rock, com certo conhecimento teórico em música e que, por muito tempo, criticou o funk brasileiro - seja paulista, carioca ou de onde for - com as críticas de sempre: letras ruins, apologia às drogas e ao sexo livre, promiscuidade total, e por aí vai.

O que tinha lá?  Pessoas se divertindo. Apenas isso. Homens bebendo e dançando, meninas de shortinho e blusinha dançando. Gente que bebia, dançava e beijava até cansar. E quando cansava ia pra casa – alguns casais devem ter ido pra outros lugares, mas enfim... A mesma coisa que acontece em qualquer outra balada, festa, arrocha, arrasta-pé, forró e o nome que se queira dar pra pessoas bebendo e dançando. A diferença é que lá tocava funk. Algum crime nisso? 

Ah, mas o funk tem letras pornográficas e... Sim, tem. A maioria, pelo menos. E daí? A maioria das “divas pop” americanas cantam letras impronunciáveis e todo mundo ama. Funk não é pra ser tocado no aniversário de casamento da avó – a não ser que ela peça! Funk é pra curtir na balada, no celular – com fone de ouvido, plmddeus. Precisamos aprender a separar as coisas. Quem quer músicas com letras profundas, que tocam a alma e o coração ouça música gospel, um bom samba antigo, ou qualquer coisa do tipo. Funk é pra divertir, pra dançar, pra beijar, pra transar! Se você é rockeiro, sertanejo e etc, não ouça funk. Simples. Funk é pra novinha que é terrorista. Não curte? Não ouça! Tão óbvio. 

Mas o funk tem envolvimento com o crime, o tráfico... Sim, isso é verdade. Como também é verdade que a política tem envolvimento quase 100% com o crime e nem por isso você deixa de votar. E as vezes ainda vota nos bandidos de sempre. A gente até elege membros de facção pra prefeituras – né, povo de Embu das Artes? Não curtir funk não vai fazer os membros de facções deixarem de se envolver como crime.




E aquelas mulheres vulgares que não se valorizam, se oferecendo pra todo mundo... Aí é outra conversa. A gente vai precisar definir o que é uma mulher “vulgar”. É aquela que usa minissaia, que dança quando tem vontade, que joga a bunda no chão, que sarra quando quer, que beija quando quer, vai pra cama com quem quer? Eu não chamaria isso de vulgaridade. Chamo de liberdade. Ser livre é se comportar da forma como você quiser – e assumir as consequências disso. Quer ser puritana, se vestir de forma “comportada”, ouvir músicas socialmente aceitas? É seu direito. Quer fazer o oposto disso tudo? Também é seu direito. 

Mas o funk faz apologia aberta ao uso de drogas, ao sexo livre... Vem cá, você sabe que o rock nasceu assim, né? O slogan "sexo, drogas e rock'n roll" te diz alguma coisa? Além do mais, não vi ninguém usando nada de "diferente" lá, talvez por ser uma casa fechada e a segurança ser forte – revistaram até a bolsa térmica onde levo meus lanches pro trabalho... E mais uma: baile funk é o único lugar do mundo onde se consome drogas? 

E essas adolescentes caindo no funk no meio da rua, e tals... Isso é outra história. Meninas de 12, 13 anos cantando "quica no meu pau" é responsabilidade dos pais e falta de responsabilidade de adultos que permitem a entrada de adolescentes em festas do tipo. A que eu fui era fechada, bem organizada, apenas para maiores de 18 anos, com conferência de documento na porta. 


Enfim, fui, curti, e voltarei quando der. Entendam que ao defender o funk brasileiro não estou defendendo os "pancadões" de rua que atormentam bairros inteiros nem os bailes dos morros cariocas onde armas circulam livremente. Isso é caso de polícia e como tal deve ser tratado. O que falo aqui é do baile organizado, em casas específicas, com toda a organização. São casos beeeem diferentes! 

O problema não é a música, é o uso que se faz dela, assim como foi com o rap nos anos 90, taxado de "música de bandido" e hoje visto como cult. "Racionais MC's" eram o que havia de pior na minha infância, e hoje são celebrados como artistas que dão voz à realidade das favelas e periferias. Qual o problema do funk, então?

Toda generalização é burra, e isso cabe em qualquer situação, inclusive ao funk. O que vejo em quase todas as críticas ao funk paulistano e carioca é puro, gratuito e simples preconceito.

Seu gosto musical é particular e pessoal, e deve ser respeitado assim. Se gosta, ouça. Não gosta, não ouça. Apenas isso!


***


Desconstrução é a série do Quem Foi Que Disse onde vou conhecer, experimentar, vivenciar coisas nem sempre bem vistas pela "opinião pública". A ideia é mostrar como nossos preconceitos pessoais muitas vezes interferem totalmente na forma como encaramos - e julgamos - certas coisas. 

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