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A Minha Casa | Crônicas #65




Por Wes Talaveira


Você fez aquela viagem que vinha programando há alguns meses. Tudo é empolgante. Desde o momento do embarque no avião até a chegada ao local onde você pretende ter dias incríveis. Conhece gente diferente, visita pontos turísticos, conhece a história do lugar, frequenta as melhores baladas e bares, almoça com amigos, anda pela cidade, sente a simpatia e a receptividade das pessoas do lugar. Faz fotos ótimas que te farão recordar da viagem por alguns bons anos, e a cada vez que olhar as fotos vai se recordar com detalhes do contexto que a envolveu. 

O que pode ser melhor que isso? Apenas a sensação de voltar pra casa. 

Ao chegar em sua cidade, parece que o ar muda. Você já está acostumado até com a temperatura e o cheiro de poluição. Relembra as mesmas dificuldades para conseguir um taxi e não estranha a falta de simpatia do motorista, que simplesmente destrava o porta malas e deixa que você se vire com sua bagagem enquanto responde alguém no Whats App. Pega o trânsito de sempre até sua casa. Ao chegar, tem a mesma dificuldade de sempre para abrir o portão que estava meio emperrado e que só abre se você der aquela puxada de leve para cima. 

Ao entrar em casa, vê caída no quintal a revista que você assina e a conta de luz, mais cara que nos outros meses, além de algumas sujeiras que vem da rua. Ao abrir a porta, exceto o cheiro de casa fechada que fica impregnado no ambiente, tudo está do jeito que você deixou: a xícara marrom em que você tomou café antes de sair para viajar, o tapete preto meio bagunçado perto da porta, a almofada desalinhada no sofá, o controle da TV em cima do roteador da internet, a tampa do fogão levantada e a cama bagunçada, e lembra que no dia da viagem acordou atrasado e nem teve tempo de estender a colcha meio rasgada na ponta que você sempre usa. A pasta de dente no banheiro ficou em cima da pia e a toalha molhada ficou estendida no banheiro, agora já seca pelos dias que ficou sem uso. 

Ao entrar em casa você relembra rapidamente os dias maravilhosos que teve na viagem, mas a sensação que tem é um misto de saudade, vontade de voltar e, ao mesmo tempo, alívio por ter voltado. Mas, se a viagem foi tão boa, tão empolgante, porque o alívio por ter voltado? 

Porque, por melhor que tenha sido a viagem, lá não era sua casa. 

Na sua casa você já conhece com detalhes cada problema: o chuveiro que você precisa forçar a chave na posição “inverno” para que realmente aqueça, a porta da cozinha que tem um vão grande demais e facilita a entrada de baratas, e você remedia com um tapete dobrado todos os dias antes de dormir. O controle da TV que tem um leve defeito no número 4 e que te obriga a digitar o canal 339 e pular um canal cada vez que quer assistir as notícias no 340. 

Como diria Marina Colasanti, a gente se acostuma com essas pequenas coisas, mas não devia. Eu sei que não devia, que a gente devia consertar essas coisas, e etc. Mas desculpa Marina, são essas pequenas coisas que fazem a minha casa ser o lugar onde me sinto à vontade, onde posso baixar a guarda e me despir da capa social para ser eu mesmo. 

Na minha casa eu fico só de cueca e meia, ando descalço e como frango direto da panela. Na minha casa eu posso peidar e ainda dar risada do barulho. Na minha casa eu posso limpar o dente com a língua. Na minha casa eu posso ver aquele vídeo no Youtube da loirinha de shortinho dançando “esse bumbum que faz tumbalatum”. Na minha casa eu arroto, falo palavrão e corto a unha do pé, e ainda dou risada do tamanho gigante do meu pé 43/44. Na minha casa eu canto no chuveiro como se estivesse me apresentando no intervalo do Super Bowl e agradeço o público pelo carinho; faço penteados bizarros no cabelo, faço sorriso de personagem de mangá com o umbigo e os mamilos, visto a camiseta que ganhei há anos numa promoção do cinema e que já está bem gasta, mas tem aquele cheirinho confortável. 

Na minha casa estão as minhas coisas: minha estante já pequena para a quantidade de livros, que agora ficam empilhados. Meu notebook lento que está com uma das dobradiças quebradas, o que exige certo cuidado quando levanto a tampa; minhas canetas dentro da caneca de cerâmica com a letra de “Socorro”, do Arnaldo Antunes; minha mesa de bugigangas, onde ficam minhas latas decoradas coma bandeia da Inglaterra, meus carrinhos do tempo de criança, meus vários CDs empilhados, meus enfeites comprados no Rio nas férias de 2014, os bonsais que comprei na Liberdade ano passado quando minha amiga do interior veio para cá e outras várias coisas que vez por outra tenho que tirar pra limpar por causa do pó que acumula. 

A minha casa não é a maior, a mais bonita nem a mais luxuosa do bairro. Não tenho os melhores dispositivos tecnológicos que facilitam o dia a dia e blá blá blá. Mas na minha casa eu tenho o que não tenho em qualquer outro lugar: liberdade total. Na minha casa estão meus pertences e minha história, o que me faz ser eu mesmo. 

E é tudo isso que faz minha casa ser o melhor lugar do mundo.


***



Wes Talaveira
Publicitário, consultor de mídias sociais e inbound marketing, escritor e blogueiro há quase 10 anos. Já escreveu no Insoonia quando o blog ainda estava hospedado no servidor da MTV, além de outros portais de opinião.  

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