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O dia em que fui vítima de abuso sexual no metrô | Pessoal #1




Os textos marcados com a tag “pessoal” expressam o ponto de vista, a opinião ou relatos pessoais dos colaboradores do blog. 


Por Larissa Oliveira 


Foi ontem à tarde, mais ou menos umas 18:30. Embarquei na Sé com destino à estação Saúde da linha azul do metrô de SP. Como era de se esperar pelo horário, o metrô estava lotado. Entrei e me espreitei por baixo do braço de uma senhora (ser baixinha ajuda muito nessas horas) pra encontrar um cantinho onde eu pudesse me segurar. Na estação seguinte algumas pessoas desceram e outras entraram. Como eu já disse, o metrô estava cheio, e não tinha como eu ver quem estava atrás de mim. Entre uma estação e outra, percebi um homem próximo demais de mim. Corpo colado nas minhas costas. Tentei ir um pouco pra frente, mas ele acompanhou. Puxei o corpo para a direita e ele puxou também. Fui para a esquerda e ele continuava a se esfregar em mim. A cada movimento dele percebia algo encostar em minha bunda. Me virei enfurecida para falar algo, mas o trem já estava na estação e ele se virou rapidamente para descer, sem me olhar. Não vi o rosto dele. Vi apenas as costas, e sei que era magro e não muito alto. Estava com camiseta polo branca e calça moletom. Não levava nada nas mãos. Só quando ele se foi percebi que minha calça estava molhada. Coloquei a mão e logo percebi. 

Ele havia abusado de mim no metrô e ejaculado na minha calça. 

Comecei a chorar de raiva. Uma mulher do meu lado percebeu o que havia acontecido e me acompanhou na estação Vila Mariana, onde procurei um segurança pra relatar o que houve. Apesar de bem-intencionado, ele apenas perguntou se eu havia visto o rosto dele. Não, eu não vi. Naquela hora ele devia estar longe, rindo da minha cara e satisfeito por ter gozado na bunda de uma gostosa, uma "vadia qualquer" Desisti de registrar qualquer queixa. Embarquei novamente pra voltar pra casa. Só queria chegar em casa e tomar um banho. Me sentia suja. Jogar aquela calça no lixo, cortar, picar, colocar fogo, sei lá. Me senti culpada por estar com uma calça que marcasse tanto a bunda. Me senti culpada por ter um corpo bem definido, por cuidar do meu corpo. Lembrei de todas as vezes em que sou chamada de gostosa, e tive mais raiva ainda. Me senti como se estivesse numa jaula cheia de leões prontos para me devorar e eu não tivesse pra onde escapar. Não conseguia parar de chorar. 

Pra encurtar, desci no metrô Saúde e liguei para minha mãe. Pedi que ela viesse me buscar, não tinha condições de andar sozinha na rua. Cheguei em casa e tomei um banho. Chorei mais no banho, por me sentir tão vulnerável, tão exposta. 

E sabe o que revolta mais? É saber que eu não sou a única. Não fui a primeira nem serei a última. Queria muito sera última a passar por essa experiência horrível! Todos os dias milhares de mulheres tem histórias de abusos no transporte público, seja em SP ou em qualquer outra cidade. Quando isso irá acabar? O que é necessário fazer para que os homens entendam que o corpo de uma mulher pertence exclusivamente a ela, e cabe a ela decidir quem tem acesso a ele ou não? 

Me senti muito mal no dia, mas agora quero apenas que isso acabe. Quero sair de casa com a roupa que eu quiser e ter a garantia que terei meu direito de ser humano respeitado. Não é problema meu se você sente tesão em locais inapropriados. Guarde isso pra você. Se alivie em casa, faça da forma mais nojenta que quiser fazer, mas não me envolva nisso. 

O metrô é público. Meu corpo, não!


***


Larissa Oliveira 
É estudante de Direito, paulistana e filiada ao PSDB. Colabora com o blog há 3 anos e cuida das redes sociais da página

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