Translate

Precisamos Falar #2: Cauã Reymond e uma nova forma de ver a masculinidade

Cauã Reymond em cena do clipe de "Your Armies", de Barbara Ohana



Weslley Talaveira

O que é ser homem?

O conceito de masculinidade é questão fechada para boa parte das pessoas. Ser "homem", desses "homens com H maiúsculo" como aprendemos com nossos avôs e pais, é não ser frouxo, ser forte, insensível, não se emocionar, nunca chorar sob hipótese nenhuma, se cuidar apenas com o mínimo para nunca ultrapassar a linha entre a higiene e a vaidade. Ser homem é evitar qualquer coisa que se aproxime do mundo feminino, para não correr o risco de virar uma "mulherzinha", ou um "afeminado". Ser homem é nunca, em hipótese alguma, admitir beleza em outro homem, sob o risco de "virar gay". Ser homem é bater no peito e espalhar aos quatros ventos o orgulho pela masculinidade viril que parece sair pelos poros junto com o suor. Isso é ser homem pra muitos, e qualquer possibilidade de ver a masculinidade fora desses padrões é praticamente impossível.

E se disséssemos que esse conceito de masculinidade está ultrapassado e que já há muitos homens revendo isso?

É claro que quando falo nesse conceito de masculinidade estou falando de homens héteros, pois os homens gays já tem em si, por natureza, outra visão da masculinidade. E, aos trancos e barrancos, debaixo de muita confusão, muita briga e desavença, bem aos poucos mesmo, o "Brasil hétero" está se conscientizando de que há muito mais num ser humano além do estereótipo "masculino X feminino" que sempre tivemos. Lentamente estamos percebendo que os limites entre "coisas de homem" e "coisas de mulher" estão sendo quebrados.  Aos poucos estamos reconhecendo que um homem não necessariamente precisa ser um "ogro" para ser homem. Um ótimo exemplo disso é o clipe de "Your Armies", da cantora Bárbara Ohana. 

Pra ser bem sincero, só fiquei sabendo da existência dessa cantora hoje. Exceto pelo sobrenome conhecido - sim, ela é sobrinha da atriz Cláudia Ohana - quase passei batido pela reportagem que falava sobre o novo clipe dela, pensando se tratar de mais algum novo cantor pop. Quando vi a imagem da reportagem, tive de parar para ler. O clipe trás uma transsexual loira, bonita, seduzindo um homem que, após após ter com ela uma atitude machista, recebe de volta em forma de castigo o comportamento violento que teve. Até aí tudo bem, uma história interessante. Mas o que chama tanto a atenção no clipe?

É que o ator que interpreta a transsexual é ninguém menos que Cauã Reymond.

Cauã Reymond é hoje nada menos que o maior símbolo sexual do universo feminino no Brasil, protótipo do homem perfeito e másculo que povoa o imaginário feminino, fato atestado por 10 de cada 10 mulheres. Ver Cauã Reymond...

CALMA! o clipe tá no final do post. Termina de ler e depois assiste... rs

Voltando ao assunto, ver Cauã Reymond atuando como mulher é algo no mínimo contestador. Para o ator e para a arte em geral. O próprio Cauã diz que, na montagem do clipe, houve uma preocupação de não interpretar uma transsexual caricata, um "traveco", mas uma mulher com sentimentos, algo difícil principalmente pela falta de diálogos no clipe. Houve uma preparação, todo um jogo de atuação e comportamento nesse clipe para que o resultado fosse bom. 

E sim, o resultado foi excelente. Longe da imagem pejorativa a que os trans estão acostumados a ser expostos, o clipe mostra uma mulher bonita, forte e segura de si a ponto de se vingar da maldade que sofre, não antes sem uma boa dose de sensualidade (e paro de falar do clipe aqui, pra não soltar spoilers... rs). E como se isso não bastasse, essa mulher é interpretada pelo homem mais desejado pelas mulheres brasileiras. Um homem que sabe muito bem dessa sua popularidade entre o público feminino, mas que não se tornou menos homem por se maquiar e encarnar a feminilidade em seu trabalho artístico. Cauã Reymond representa no clipe mais do que uma transsexual. Representa o homem que sabe que ser "masculino" é muito mais do que ser o "machão" ogro que depende de coçar o saco e arrotar para não ser "mulherzinha".

O clipe serve como material para um debate há muito tempo latente no Brasil, mas ainda muito evitado: precisamos falar sobre o conceito de masculinidade.

Sim, dá pra ser homem, hétero, respeitando gays afetados ou não, tratando mulheres como iguais, se cuidando. Ser homem é muito mais do que a forma como se veste ou como se cuida. Ser homem hétero é ter tanta segurança de sua masculinidade que não é uma personagem feminina em um vídeo que irá diminuí-lo. Ser homem hétero é não precisar de páginas no Facebook que sustentem um suposto "orgulho hétero". Com o clipe de Your Armies, Cauã Reymond dá uma boa lição de como ser o homem seguro de si o suficiente para não se sentir questionado em sua essência só por fazer coisas opostas ao que a ideia coletiva de masculinidade diz ser "normal". Complicado? Explico: usar uma peruca loira e maquiagem para o trabalho não faz de um homem  um "viado", um "bichinha". Até porque o homem hétero seguro de si sabe que respeitar e conviver com gays e trans é tão simples quanto viver com outras pessoas da mesma orientação sexual.

Só vamos conseguir de fato combater o preconceito e a homofobia quando tivermos a coragem de falar sobre nosso conceito de masculinidade. Esse debate é urgente e necessário, e precisa ser feito.

Tá, pra finalizar, aí está o clipe!



Nenhum comentário:

js.src = "//connect.facebook.net/en_US/sdk.js#xfbml=1&version=v2.0";