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Bela, recatada e do lar | Opinião #71


Sandy Leah. Fonte: GShow


Tayhnar Petrovna

Por isso que eu gosto do Quem Foi Que Disse?: há menos de dois meses o blog publicou uma série incrível sobre o feminismo, com textos maravilhosos. Hoje me cede espaço pra criticar o feminismo... Isso é democracia. Aprendam, militantes partidários! 

A polêmica do momento - entre tantas outras que povoam a internet todos os dias - é a reportagem da Veja sobre a esposa do vice-fazendo-de-tudo-pra-ser-o-próximo-presidente do Brasil Michel Temer. A reportagem fala da rotina da Vice-Primeira Dama Marcela Tedeschi Temer, sobre o relacionamento dela com o marido que tem idade pra ser avô, mas isso é assunto deles e eu não tenho que me meter nisso, apesar de dar uma vontade enorme de comentar, entre outras coisas. A reportagem em si, apesar de ter um nível de entojo digno das reportagens de Caras, causou polêmica pelo título: bela, recatada e "do lar" (sim, com aspas). O movimento feminista, com todo o barulho que sabe causar, e na maioria das vezes em causas realmente dignas e nobres, começou a condenar a reportagem, dizendo que isso é uma crítica à liberdade que toda mulher tem de ser o que ela quiser, seja "recatada", seja puta, seja menininha, seja piriguete. Segundo as feministas (e um bom número de gente que nem sabia direito do que se tratava mas embarcou na história pra aproveitar e publicar aquela foto devassa que adorava mas não tinha coragem de postar com medo das críticas dos amigos) o título "bela, devassa e do lar" só reforça o estereótipo conservador brasileiro da "mulher certa", da mulher "pra casar", da mulher "que se dá ao respeito", fazendo com isso um juízo de valor sobre as mulheres que não se encaixam nesse padrão, mas que merecem o mesmo respeito. 

Sim, concordo totalmente com o movimento quando diz que existe um pensamento conservador no  Brasil que separa as mulheres em mulheres "pra casar" e mulheres "pra curtir". Esse pensamento retrógrado realmente faz parte do imaginário masculino e qualquer mulher que não faça parte do perfil "pra casar" já ouviu algo do tipo em algum momento da vida. Ainda se mantém a cultura de que a mulher que cuida da própria vida, que faz o que quer sem ter de se sujeitar a aprovação de ninguém é uma mulher "avançada demais", que só serve para o momento, pois essas mulheres "não sabem ser fieis", são "piriguetes", "vadias", e etc. O juízo de valor (imposto não só pelos homens, mas muitas vezes pelas próprias mulheres) sobre o comportamento feminino não é novidade pra ninguém. 

Mas na boa? Não vi nenhum juízo de valor na reportagem da Veja. Excesso pela ânsia de vômito que a matéria causa (os apelidos carinhosos "Mar" e "Mi" são de lascar!), não vi nenhuma crítica a qualquer tipo de comportamento feminino. A reportagem falou sobre a personalidade da Marcela Temer. É uma reportagem dedicada a ela. Se a reportagem serve como propaganda do Temer, pra mostrar como o Temer é um bom homem e conseguiu construir uma "família perfeita" - e fica nítido que o objetivo da reportagem é esse mesmo - é outra coisa bem diferente. Ela é, realmente, uma mulher "bela, recatada e do lar", o tipo perfeito da "menina comportada". Ela é assim, nasceu assim e vai ser sempre assim Gabrielaaaa. Em nenhum trecho a reportagem diz qualquer coisa sobre ela ser o tipo "ideal" de mulher. Só fala como a Marcela Temer é. 

Além do mais, o que eu senti em várias publicações foi um outro tipo de preconceito: contra a mulher "bela, recatada e do lar". Se todas temos o direito de sermos como queremos ser, a menina "boazinha" também tem o direito de ser assim. Se a menina quer ser religiosa, ajudar a mãe, não beber álcool, ficar em casa no sábado a noite ou sair com outras amigas tão boazinhas como ela, se ela quer cozinhar para o marido e lavar a roupa dos filhos, enfim, se ela quer ser "careta" (sem o sentido pejorativo da palavra), ela tem o direito de ser assim. As "modernas" não tem o direito de pressionar ninguém a ser como elas são. Se a menina quer ser "boazinha", que seja. Ela não necessariamente é "santa do pau oco", "hipócrita". Ela só é boazinha. Simples. A Sandy construiu uma carreira milionária sendo o modelo perfeito de menina "boazinha" e todo mundo aceita numa boa. Por que a Marcela Temer não pode ser? Por que no atual momento ela cometeu o grave erro de ser casada com o Temer? Tá, eu não casaria com o Temer nem que ele fosse o último ser humano da Terra, mas isso foi uma escolha dela. 

Num momento tão delicado como o atual, em que todo mundo tá de ânimo exaltado e distribuindo porrada em qualquer um que pense diferente, precisamos tomar muito cuidado pra não criar polêmica em cima do que não existe. A bronca pessoal do movimento esquerdista contra uma revista claramente de Direita mas que não assume isso de jeito nenhum não pode servir de combustível pra polêmicas vazias. Até porque polêmica vazia é coisa dos direitistas reaças bolsomitos. 

A campanha pelo direito da mulher ser o que ela quer ser é linda e deve continuar. Só precisa ser criada pela motivação certa. 


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Tainar Petrovna tem 23 anos, mora em São Bernardo do Campo, é filiada à Rede Sustentabilidade.

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