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Não, nem todo homem é machista | Opinião #70




Weslley Talaveira


Semana passada recebi pelos contatos do blog o seguinte e-mail:

"Boa tarde!

Li todos os posts da série Mulheres com Novas Ideias que vocês publicaram. E não posso deixar de falar da minha indignação com tanta hipocrisia desse blog ao falar da causa feminista. Não pelos textos que foram ótimos, mas pela iniciativa ter vindo de um homem. Esse blogueiro agora resolve "dar espaço" pras mulheres. Quem ele acha que é? Homens são nojentos, patifes, seres da pior espécie que deveriam ser eliminados da face da terra. Que que é? resolveu ser "bonzinho" e "ceder um espacinho" no seu ilustre blog pra que algumas mulheres falem, essas loucas que só podem ter espaço se ele for cedido por homens de boas intenções como você? Vocês não me enganam, machistas de merda. Não passarão. Não duvido que você olhe bunda de mulher na rua e que não seja um babaca que vive de ler Playboy e se deliciar com a degradação de mulheres pelo mundo. Sai do Redtube e faça alguma coisa útil, seu idiota. Não queremos o apoio de homens. Não queremos vocês do nosso lado. Vcs do nosso lado é como militares em favor da democracia. Vocês são o lado de lá, o que queremos e vamos derrubar custe o que custar. Mulher de verdade não precisa de homem pra se estabelecer. Mulher de verdade não precisa da caridade de macho nenhum. Mulheres de verdade não precisam de homens nem para o sexo, só ver como o movimento LGBT está ficando forte. Somos fortes, como Frida Kahlo foi, e podemos escrever sozinhas, podemos publicar testos sozinhas. Você não sabe o que é sofrer com o machismo. Você não é oprimido. Pelo contrário, você é dos que oprimem. Os piores são os que se dizem estar do nosso lado, que se mostram como "bonzinhos". Vai ser bonzinho com sua mãe. Aqui você vai encontrar luta e resistência. E as meninas que escreveram nesse blog: vocês envergonham a causa, ao se deixarem manipular por homens. Acordem, girls!"

Sim, o e-mail é anônimo, como não poderia deixar de ser. Os erros de português foram mantidos na íntegra. 

Na verdade eu nem ia responder, principalmente porque os ataques são direcionados quase exclusivamente a mim e eu não me preocupo nem um pouco com essas coisas, mas como sei que as críticas dela são na verdade as críticas de muitas outras, vamos tentar conversar um pouco: 
  • Em primeiro lugar, realmente eu não sei o que é sofrer com machismo, já que não sou mulher. Realmente não sei como é o medo que vocês sentem quando encontram um homem numa rua escura à noite, não sei o que é ter de proteger o corpo no metrô para não ser abusada por nenhum homem. Não sei nada disso, e se eu tentasse falar sobre isso seria algo no mínimo desonesto. Por isso convidamos mulheres para participarem da série, assim como foi em todos os seis anos em que o "Mulheres com Novas Ideias" foi publicado. Pra entender o que uma mulher sente, só perguntando pra ela. Foi o que fizemos.
  • Segundo: a pessoa que escreveu cometeu o erro clássico do fanatismo - a generalização. Para o corintiano fanático, todo são-paulino é "bicha" e todo palmeirense merece morrer. Para o petista fanático, todo crítico ao PT é "tucano". Para o direitista fanático, uma simples camiseta vermelha é sinal de comunismo. Para o religioso fanático, toda pessoa que não segue aquela religião é um "perdido". E para a feminista fanática todo homem é um "opressor". Já dizia Nelson Rodrigues que "toda generalização é burra". Existem homens babacas? Sim. Eles são em grande número? Sim. Todos os homens são babacas? Não. 
  • Terceiro: feministas como a pessoa que nos enviou o e-mail precisam definir qual o objetivo real da luta - vocês lutam contra o machismo ou contra o gênero masculino em geral? Se a luta é contra o machismo, e concluindo que nem todo homem é machista, é importante que vocês tenham ao seu lado homens. Assim como há héteros que lutam a favor da causa gay. Ter ao seu lado a mesma pessoa que poderia ser um virtual agressor enriquece o debate e fortalece a causa. Mostra que o debate não está restrito a um grupo específico, mas que é uma demanda de todos. Ter héteros que defendam a causa gay mostra que a luta não é um movimento dos gays, mas da sociedade em geral. Ter homens defendendo a liberdade da mulher e falando sobre o assunto é a mesma coisa. A luta passa a não ser apenas das mulheres, mas da sociedade.  

Os demais "questionamentos" não merecem ser respondidos pois não passam de ofensas e ataques pessoais e gratuitos típicos de quem precisa usar fakes pra dar opinião.

Aliás, só pra concluir: esconder-se atrás de um fake ou de um pseudônimo pra criticar é algo tão antigo e tão manjado que nem assusta mais. Se a pessoa que enviou o e-mail estiver afim de conversar melhor, mostre a cara e podemos abrir um novo especial no blog pra isso, se for o caso. Mas fale de cara limpa. Mostre quem você é de verdade. Seu nome e sobrenome, cidade onde mora, se pertence a algum coletivo feminista e qual é esse coletivo. Vamos conversar sim, mas como pessoas reais. Debater com fakes é perca de tempo. 


***


Atualização:

Após a publicação do texto acima o blog recebeu diversas manifestações de apoio. Divulgaremos algumas abaixo:


"Isso é ridículo, esse tipo de pensamento enfraquece o movimento é faz com que quem olha por fora ache que toda feminista é "feminazi". Além de ser contraditório, quem luta pela igualdade de gênero jamais deveria querer que um gênero se sobresaia sobre o outro. É importante os homens que são a favor do movimento também se expressarem, pois isso fortifica, mostra que é uma causa da sociedade. Além do mais, os argumentos da menina são ridículos: se todo homem é machista só porque nunca passou por esse tipo de opressão, então todo branco é racista, todo hétero é homofóbico, td não imigrante é xenofóbico e assim vai, logo, essa alegação é ridícula. "

"São pessoas como a garota do e-mail que afastam gente bem intencionada do movimento feminista. O fanatismo está presente em qualquer corrente de pensamento, seja política, religiosa. Ser feminista é necessário. Ser fanática é prejudicial. Os homens nos apoiam? Maravilha, que venham e tragam mais. Essa é uma luta de todXs"

"Se defendemos que nenhum gênero pode se sobrepor ao outro, não podemos diminuir os homens. Somos iguais, não melhores. A moça que enviou o e-mail parece confundir luta feminista com seus problemas internos com a masculinidade. Resolva isso com você mesma, depois venha militar pela causa". 

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