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#Opinião: Era vidro e se quebrou




Weslley Talaveira

Acostumado ao calor das massas que que elegem não um líder político, mas um messias, o ex-sindicalista e ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva vive atualmente um momento com o qual ele provavelmente nunca havia sequer sonhado. 

Lula desfrutou, por muitos anos, da mais tranquila estabilidade social no que se refere a opinião pública, mesmo sempre dizendo o contrário. Dos pobres sempre recebeu o apoio irrestrito a qualquer empreitada que se lançasse, sendo candidato próprio ou lançando algum representante seu. Dos mais ricos, apesar da resistência inicial, recebeu também o apoio necessário para que sua popularidade ultrapassasse todos os níveis históricos. Do empresariado, passado o medo do “comunista soviético”, recebeu não só o crédito como apoio para suas medidas nem sempre ideais. Dos partidos aliados recebeu não só o apoio, mas uma espécie de cheque em branco para atuar como e da forma que desejasse em qualquer coisa. Da oposição, se não teve apoio, pelo menos não encontrou o menor embaraço para levar adiante suas ideias. Da mídia, apesar da relação conflituosa, Lula sempre recebeu obediência, causada talvez pelas ameaças de controle de conteúdo. Do partido que ajudou a fundar sempre recebeu não só apoio, mas uma veneração quase sacra que o alçou ao posto de herói nacional, um semideus, alguém iluminado diferente dos demais e acima do bem e do mal. Foi aliás, nessa última crença que o próprio Lula construiu sua imagem ao longo dos anos: alguém diferente dos demais, acima do bem e do mal. 

Aí vem a Justiça e sopre no castelo de cartas construído com riqueza de detalhes por tantos anos, mostrando que o semideus na verdade não é tão isento assim como sempre se acreditou. Agora investigado por uma suposta (veja bem, suposta) compra de um tríplex vendido por uma cooperativa que lavava dinheiro desviado da Petrobrás, Lula convive com um cenário que viu no quintal de todos os amigos históricos, mas nunca imaginou que chegasse ao seu: uma investigação do Ministério Público e uma possível denúncia, o que o levaria a responder um processo criminal de lavagem de dinheiro e com possibilidade inclusive de prisão. Como se não bastasse, Lula assiste da fileira da frente sua sucessora destruir aos poucos cada uma das suas bandeiras de governo, com as quais chegou ao ápice da popularidade. Os pobres voltando a ser pobres, os empregados perdendo seus empregos, quem comprou seu carro entre 2002 e 2010 agora foge das buscas e apreensões, quem “passou a comer frango” teve de relembrar os tempos em que se alimentava “ de farinha”, para usar as palavras do próprio Lula. A inflação, essa maldita que se manteve controlada sob seu governo graças à política econômica do governo anterior, agora dá o ar da graça com força para alarmar até o mais desavisado brasileiro. Somado a isso tudo Lula vê a Petrobrás, maior estatal brasileira, aquela que já foi orgulho nacional, mergulhada num escândalo político muito maior do que foi o Mensalão Petista. 

Como era de se esperar, Lula e seu partido reagem a isso tudo usando a vitimização, elegendo inimigos públicos que estariam tentando “derruba-lo”. Por vezes esse inimigo foi a classe alta (que ganhou ainda mais dinheiro durante seu governo), por vezes o sistema financeiro (que teve lucros exorbitantes nos oito anos lulistas), por vezes a imprensa, essa maldita golpista, o “quarto poder da República” que vive tentando derrubar um pobre líder sindicalista. Lula nunca assume que erra, ou sequer que pode ter se equivocado. Construiu para si um castelo e habita nele, não permitindo que nada nem ninguém se aproxime. Mas a Justiça se aproximou, e aos poucos a estrela que construiu em torno de si vem se quebrando, pedaço por pedaço, e sua popularidade caindo junto com seus antigos companheiros de bar e “luta”. O que era considerado favorito inclusive para as próximas eleições agora vê sua candidatura sob risco. 

Sim, Lula ainda tem alguma força política. Tem seu partido ao seu lado, porém seu partido, aquele que já foi considerado o bastião de ética do país, hoje não tem a menor credibilidade para levantar qualquer bandeira, por mais nobre que seja. Qualquer projeto encampado pelo PT hoje é visto sob suspeita pela sociedade brasileira. Lula resiste a tudo isso? 

Arrisco analisar que o Lula ainda pode mostrar alguma força política em 2018, não tanto por ele, mas pelas alternativas que vem se apresentando. O PSDB não é nem de longe alternativa ao atual governo, visto que tem todos ou ainda mais defeitos que os petistas. O PMDB... Bom, é o PMDB, isso por si só basta. A Rede, de Marina Silva, teria força de disputar sua primeira eleição nacional elegendo a presidente? Ainda é cedo para dizer. 

Cedo pra dizer também é o que será de Lula nos próximos meses. E anos.

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