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#Crônica: Viver, enquanto dá tempo

Eduardo Campos



Weslley Talaveira

Na terça-feira a noite assistimos Eduardo Campos, candidato do PSB à presidência da República, sendo entrevistado no Jornal Nacional pelos supertendenciosos apresentadores Willian Bonner e Patrícia Poeta. No final do mesmo dia, Campos deu entrevista à Globo News. Estava em plena campanha. Na quarta-feira pela manhã Eduardo Campos volta ao noticiário, mas não com boletins sobre sua agenda de campanha. Se discutia a melhor forma de encontrar seus restos mortais em meio à destruição causada pela queda do avião que o transportava de volta do Rio. Rio onde ele esteve na terça a noite, dando entrevista no Jornal Nacional e Globo News. Notou a proximidade dos acontecimentos? Em menos de 16 horas Eduardo Campos sai das páginas políticas para as páginas de tragédias que tanto tesão dão a apresentadores sádicos como Datena & derivados. Em menos de 16 horas Eduardo Campos deixou de ser o candidato à sucessão presidencial para virar restos mortais espalhados em Santos. Hã?!

Sim, a notícia da morte de Eduardo Campos, 49 anos, me chocou profundamente. Não necessariamente por ter ligação com ele, pois nunca me envolvi diretamente com sua história nem tinha planos de votar nele. Sim, ele é muito querido no Pernambuco - não foi difícil encontrar pessoas chorando sua morte pelas ruas de Recife - mas o que me chocou foi mais do que a morte de Eduardo Campos em si. A dor da perda deixo para a família e pessoas ligadas diretamente a ele. A perda política deixo para os demais candidatos, para seu partido e especialistas no assunto, que terão muito a comentar e analisar pelos próximos dias - sem dúvida é uma perda enorme para o Brasil. O que me chocou mesmo foi a forma frágil com que ele deixou esse mundo. Um homem cheio de vida e de planos - e de filhos, pra não esquecer - de repente vira um monte de carne queimada numa tragédia. De repente. 

As vezes nos esquecemos o quão frágil é a nossa existência nesse mundo. A alegoria bíblica da criação do homem a partir do pó da terra - claro que não acredito que o homem veio de Adão - tem o objetivo de mostrar exatamente isso: somos seres pensantes, inteligentes, que criam, planejam, executam, mas somos pó. Apenas pó. Pó que pode ser espalhado com uma brisa qualquer. Em um minuto podemos deixar essa vida, e tudo o que havíamos feito fica aí, à merce de outros que queiram ou não continuar. Uma outra frase bíblica diz que nossa existência é como a nuvem: você olha e está de um jeito, olha de novo e não está mais. Nossa existência é muito incerta. Não sabemos o que irá nos acontecer no próximo dia, na próxima hora. Você pode até não voar para evitar que uma tragédia dessas aconteça com você, mas você pode ser atingido por um ônibus desgovernado num ponto. Pode ser vítima de um assalto besta. Um piano pode cair na sua cabeça, e tudo pode se acabar. De repente. 

Sim, isso angustia a qualquer um, e me angustiou o dia inteiro. Digamos que esse não é o melhor pensamento a se ter exatamente na semana do aniversário, mas me ajudou a lembrar de coisas que eu vinha me esquecendo: que posso ter toda uma vida pela frente, e posso não ter. O próprio avô de Eduardo Campos, o ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes, morreu aos 89 anos. Viveu muita coisa. Mas o neto morreu com 40 anos de antecedência. Morreu, depois de dar uma entrevista no Jornal Nacional, na Globo News, voltar para o hotel, dormir, acordar e se arrumar para viajar para Santos e dar outra entrevista. Cara, isso é muito louco. Desculpe pela gíria, mas é a expressão que define o que estou sentindo no momento. Essa sensação de impotência diante do acaso, diante do imprevisto. Imprevisto, esse deus perverso que não escolhe dia nem hora para atacar, que vem sobre qualquer um, independente da idade ou do estilo de vida. 

Parece meio mórbido falar sobre morte, mas é a consciência que temos da morte que define como lidamos com nossa vida. Só levamos a vida a sério quando temos a consciência de que ela não irá durar para sempre. Pra usar outra alegoria bíblica, não sabemos quando irão bater a nossa porta e perguntar: "louco, o que você tem preparado?". 

Agora só resta refletir. E viver, enquanto da tempo. 
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