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#Opinião: Em cima do muro com Valesca

Valesca Popozuda. Fonte: M de Mulher

Weslley Talaveira

Eu gosto de pensar que o Brasil está numa fase de transição. Historicamente somos conservadores. Fomos colonizados por portugueses católicos e nossos maiores herois nacionais são padres e santos (São José de Anchieta, Padre Antônio Vieira, São Paulo, por exemplo). Somos um país onde a religião e todo o conservadorismo que sempre a envolveu tem muita força como formadora de opinião de massas, mas os tempos modernos nos tem colocado em contato com o extremo disso tudo. Se por um lado sempre tivemos a influência do conservadorismo, por outro lado bombam todos os dias pessoas e situações que nos questionam, nos tiram da nossa zona de conforto e nos fazem pensar sobre tudo aquilo em que acreditamos. Nossa atual situação é a prova de que nem sempre os opostos se atraem. Pelo contrário. As vezes os opostos travam guerras intensas. 

Penso que estamos numa ponte bastante frágil que liga o conservadorismo extremo à libertinagem total, e ainda não encontramos um ponto seguro onde nos apoiar. Sim, ainda balançamos bastante, sem saber se voltamos atrás e nos seguramos novamente no lado conservador ou se corremos para frente e chegamos na falta total de limites. E essa insegurança nos incomoda, pois não gostamos de riscos. Queremos um lugar certo para estar. Não gostamos da dúvida. Queremos certezas, mesmo que para isso não precisemos questionar muito. E o momento atual é de dúvida: continuamos conservadores? Aceitamos tudo como normal e dane-se o universo? Se preocupar com o futuro ou ativar o foda-se e ser feliz?

Só isso explica tanta polêmica, tanta opinião contrária, tanto debate inútil que não leva a lugar nenhum. Todos os dias vemos extremos se conflitando, opostos se atracando. As opiniões conflitantes resolveram entrar no ringue e disputar a tapa quem leva o cinturão que dará ao vencedor o título de "lado certo". Gays e héteros, esquerdistas e direitistas, moralistas e libertários, homens e mulheres, todo dia vemos uma polêmica diferente. E isso é bom. Não porque um dos dois lados tem que vencer e lançar o outro no calabouço da ideia morta, mas para encontrarmos um meio termo entre o "nem tanto" e o "nem tão pouco". Sim, estar "em cima do muro" muitas vezes é bom. Nos dá uma boa visão de ambos os lados. 

Sim, tudo isso me veio à mente a partir da Valesca Popozuda. Não só por causa dela, mas pelo que ela representa atualmente. A tal prova de filosofia aplicada no DF que a tratou como "pensadora" - uma clara e divertida ironia - trouxe novamente ao debate - leia-se "ringue" - a questão do politicamente correto e da moral e bons costumes. Bater de frente é o que? Tiro, porrada e bomba? Eis uma questão que nem Sófocles poderia responder. Mas a Valesca respondeu. 

A Valesca por si só não diz muita coisa, até porque ela não tem quase nenhum dos atributos que classificaria alguém como "artista": canta mal, interpreta mal, tem uma voz horrível e nem é tão bonita assim. Até a fabricada Anitta ganha dela nesses quesitos. Mas, muito diferente da Anitta, ela representa um outro lado da nossa sociedade, que sempre existiu mas esteve quieto até agora: o da liberdade total, o da "vadia", a "periguete", que está se lixando pra moral e bons costumes, e só quer mesmo é viver conforme suas próprias regras. 

Sim, é um outro extremo, mas ele existe, e veio novamente ao debate depois do "beijinho no ombro" que vem marcando presença em todo lado. Mandar beijinho no ombro é moda, principalmente se o alvo forem as invejosas de plantão. Os conservadores enlouquecem com essas coisas. Os "moderninhos" vibram. Os que não são nem um, nem outro? Bom, esses ainda estão tentando entender o que está acontecendo no Brasil. Eu me enquadro entre esses, que não são tão chatos, mas não conseguem ir tão além assim. 

Onde isso tudo vai dar? Não sei. Mas quero acompanhar. Esse conflito só tem coisas boas a oferecer. Sem saber, Valesca Popozuda está contribuindo para o nascimento de uma nova sociedade, uma legião de pessoas que assumidamente querem estar em cima do muro, sem se fecharem em qualquer rótulo, abertas a experiências novas. Que mal há em ser apreciador de Chico Buarque e ouvir algum funk carioca? Ou vai dizer que você nunca se contagiou com aquela batida que parece virar chiclete? Gosto dessas mistura. Gente completamente diferente que se junta de vez em quando pra fazer alguma coisa. Clássico e popular. Sofisticado e simples. É legal!

Vai, quebra um pouquinho esse preconceito e aprecie o muro. E pra quem gosta de viver no chão, fechado em apenas um lado da história e gosta de reclamar  de tudo, "late mais alto, que daqui eu não escuto". 
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