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Tubarões, minissaias e o machismo nosso de cada dia | Opinião #77





"Se roupas provocantes fossem as "culpadas" pelos estupros não veríamos tantos casos de abusos contra mulheres em países árabes, onde as mulheres vivem cobertas. O mal do estupro não é a roupa que a mulher usa, é a cabeça doente do estuprador."



Wes Talaveira


Em países onde o radicalismo islâmico é adotado como Lei, mulheres vivem uma série de restrições sociais e religiosas e raramente são protegidas pela Justiça desses países - veja que cito o "radicalismo" islâmico, pois o Islã é uma religião que prega a paz e a igualdade, muito diferente do que alguns andam dizendo por aí. Mesmo em casos de abuso sexual, em alguns países, uma mulher só pode dar queixa de estupro se for acompanhada de quatro testemunhas do sexo masculino. Como obviamente essa mulher não vai encontrar um homem que aceite testemunhar contra outro homem, a culpa pelo estupro acaba caindo nos ombros da própria vítima, que "deu motivos" para ser estuprada. 

Isso parece uma cultura distante da nossa realidade brasileira, daquelas coisas que só sabemos que existe pelas reportagens especiais dos telejornais ou pelos documentários da TV paga, mas infelizmente não é tão longe assim. Vez por outra surge alguém tentando pegar um gancho nesse pensamento machista e preconceituoso para explicar a onda cada vez mais crescente de estupros em terras brasileiras. Diariamente milhares de mulheres são vitimas dessa que pra mim é a forma mais suja e cruel de crime. E sempre aparece alguém dizendo que "as mulheres dão motivos" para serem estupradas por "se vestirem de modo indecente". É claro que esse discurso quase sempre tem como público específico as chamadas "periguetes", conhecidas por se vestirem de forma provocante quase sempre. Claro que nem toda mulher que usa roupas curtas é periguete. Uma mulher pode usar roupas curtas por estar num dia quente, por se sentir bem assim, por estar tão bem resolvida com o próprio corpo que não sente a necessidade de se cobrir. Enfim, chega a ser absurdo discutir o vestuário ideal para o dia a dia numa sociedade do século XXI que se diz evoluída. Isso me faz lembrar da minha adolescência em igrejas pentecostais nos anos 90, onde até o tamanho em centímetros da saia das mulheres era controlado. Mas eis que aqui estamos, tendo de discutir o direito das mulheres de se vestir como bem entendem. 

Entendam uma coisa: jogar a culpa de um estupro nas costas da mulher por conta da forma como ela se veste é se igualar ao estuprador. Para mim os que defendem essa ideia cretina são homens que estão com uma vida sexual completamente conturbada, doentes sexuais que se excitam com qualquer coxa à mostra nas ruas e, para evitar o mal estar deles mesmos, jogam a carga contra a sociedade. Além disso, dizer que a culpa por um estupro é da própria mulher é igualar todos os homens a um nível baixo e nojento de ser sexual, como se todo homem fosse um grande pênis ambulante que vive de procurar vaginas para se penetrar. Li hoje num perfil do Facebook uma pessoa pregando que as mulheres são culpadas pelo próprio estupro por se vestirem de forma "indecente", e ainda completou dizendo que "não se joga carne aos tubarões", como se a sociedade fosse dividida entre homens sedentos de transa a todo custo e mulheres alvos desses homens. Daí qualquer coisa que você faça pode atiçar o tesão desses homens sedentos.  Por favor! Eu como homem que sou, hétero e totalmente bem resolvido com minha masculinidade e sexualidade, rejeito totalmente esse discurso, pois me sinto igualado a esses doentes que vivem de procurar uma perna à mostra para exalar sua tara desmedida. Ao dizer que a mulher dá motivos para ser abusada, todo homem vira um estuprador em potencial (já há grupos de feministas que pregam isso, inclusive) e cria nas mulheres um sentimento de medo coletivo, em que onde estiverem, basta haver um homem por perto para se sentirem ameaçadas. Já há aplicativos que reúne mulheres que moram na mesma região para voltarem para casa a noite juntas, para evitar encontros inesperados com homens na rua. Olha só a que nível nossa sociedade está chegando!

Não! Nem todo homem é um estuprador em potencial. Gravem isso em sua cabeça, meninas. Nem todo homem que se aproxima de vocês na rua quer te estuprar. Nem todo homem te vê apenas como um objeto de prazer. Existem sim homens que sabem respeitar sua individualidade, sua sexualidade, suas roupas, seu corpo - podem ser poucos, mas eles existem. O corpo é seu, o guarda roupa é seu, você tira de um e coloca no outro o que quiser.

E vou além: se roupas provocantes fossem as "culpadas" pelos estupros não veríamos tantos casos de abusos contra mulheres em países árabes, onde as mulheres vivem cobertas. O mal do estupro não é a roupa que a mulher usa, é a cabeça doente do estuprador. Para um nojento sexual qualquer mulher, seja "novinha" ou senhora, "gostosa" ou recatada vira um alvo, e mudar de roupa não irá mudar isso. Haja vista o número de casos de senhoras vítimas de abusos. Elas também deram motivos?

Sim, toda mulher tem o direito de se vestir como bem entende. Quer usar calça e camiseta? Use. Quer usar "minissaia rodada, blusa rosinha decote enfeitado com um monte de purpurina"? Fique à vontade. Repito: o guarda-roupa é seu, você tira dele o que você quer, e coloca no seu corpo o que quiser! Uma sociedade só pode se considerar evoluída quando as pessoas são respeitadas da forma como elas são.


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Wes Talaveira
Publicitário, escritor e blogueiro há mais de 8 anos, já escreveu no Insoonia quando o blog ainda estava hospedado no servidor da MTV, além de outros portais de opinião. 
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