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#Crônica: Quero pessoas, não espelhos



Weslley Talaveira

Nesse começo de mês tivemos o tal "dia das crianças". E a empresa em que trabalho tem seu dia das crianças próprio, um dia em que os funcionários levam para o trabalho os filhos de até 12 anos, que passam o dia inteiro envolvidos em atividades voltadas só para elas. E uma das coisas que não pude deixar de notar é como crianças brincam com qualquer outra criança. Vi crianças que haviam acabado de se conhecer correndo juntas pelos corredores da empresa. O que elas sabiam do outro? Provavelmente o nome, apenas, ou nem isso. Crianças totalmente diferentes uma das outras correndo juntas. Negras e loiras, altas e baixinhas, magras e gordinhas, todas juntas. Quando vi aquilo pensei: em que momento da vida passamos a fazer distinção de pessoas?

O ser humano é preconceituoso. Sempre nos vemos tentados a tratar com descaso quem é diferente. O negro é o "preto", a loira é a "aguada", o gordo é o "baleia", o gay é o "bicha", a lésbica é a "sapatão", o transsexual é o "traveco", o deficiente físico é o "aleijado", o deficiente mental é o "doido varrido", o rockeiro é o "drogado", o sertanejo é o "corno" e uma série de adjetivo que, se fossem todos escritos, dariam uma lista se não interminável pelo menos muito grande. Mas curiosamente esse preconceito, que carregamos as vezes sem perceber, não nasce conosco, ou seja, não é uma característica humana. Quer a prova? Essas duas crianças que vi brincando. E não só elas duas. Qualquer criança que você encontrar com certeza não carrega nenhum desses preconceitos. Crianças não perdem tempo perguntando a religião da outra, qual o estilo musical ela gosta ou se é filha de pais gays. Coloque duas crianças que nunca se viram antes dentro de um mesmo quarto e em menos de um minuto elas estarão correndo em alguma brincadeira, assim como aconteceu na empresa em que trabalho. Sabe por que? Para elas a companhia do outro é mais importante do que a bagagem que ela carrega. A criança não está preocupada em saber se o outro crê em Deus Pai Todo Poderoso. Ela quer apenas brincar, e brincar é muito mais importante que qualquer outra coisa. Criança não pede tempo com bobagens como o time de futebol da outra. Criança quer alguém para brincar. Encontrou, ela brinca. Só isso. 

Sendo assim repito a pergunta: em que fase da vida aprendemos a ser preconceituosos?

Acho Jesus Cristo um cara fascinante pela forma simples como ele via a vida. E em um de seus ensinamentos ele falou exatamente sobre ser como criança. Narra a Bíblia que os apóstolos chegaram a ele para perguntar quem seria o primeiro a entrar no ceu - olha a pergunta! Jesus então colocou uma criança entre eles e disse que "quem for como uma criança entrará no ceu antes de todos os outros". E o que ele quis dizer com "ser como criança"? É ver a vida com simplicidade. É entender que se preocupar com o estilo de vida que o outro leva é perca de tempo. De que me interessa saber se a fulana leva homens ou mulheres para a cama? O que vai mudar minha vida se o outro gosta de um estilo musical diferente do meu? Precisamos aprender a viver com as diferenças. E não falo em ser "tolerante", pois pra mim a tolerância é o disfarce usado pela arrogância para parecer algo bom. O tolerante vê o mundo de cima e diz "eu aceito que você seja assim". Eu não tenho de aceitar nada. Cada um faz suas opções. Eu tenho de saber viver com a diferença. Quero desaprender o preconceito. Quero pessoas diferentes de mim. Quanto mais diferente, melhor, até porque não sou muito contente com o que sou, por que iria querer alguém igual a mim? Quero pessoas, não espelhos. 

Hoje em dia é tão difícil encontrar pessoas legais nesse mundo que quando encontro uma nem perco meu tempo perguntando sobre as escolhas da vida dela.  Quero mais é conviver, fazer amizades, estar rodeado de gente. 

E viva as crianças! 
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