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Os conflitos na Síria: você está por dentro do assunto?

Bashar Al-Assad, presidente da Síria

O que se vê na Síria infelizmente não é novo. Angola, Espanha, Iugoslávia, Bósnia e Herzegovina (que culminou com a destruição de Sarajevo), Sudão e vários outros países africanos e em todos os continentes passaram por guerras sangrentas e trágicas, que mataram muita, muita gente. Com a Síria não tem sido diferente. Todos os dias ela tem sido notícia em qualquer telejornal, portal e qualquer outro meio de comunicação. O país inteiro virou um palco de guerra que já contabiliza mais de 100 mil mortos e mais de 2 milhões (sim, dois milhões!) de refugiados. Mas enfim, o que está acontecendo na Síria?

Antes de tudo, o que é uma guerra civil?
Guerra Civil é quando o próprio povo de um país entra em guerra entre si. É diferente de dois países que resolvem brigar, como vimos nas duas Guerras Mundiais em que vários países lutaram um contra o outro e mais recentemente com as provocações entre as duas Coreias, sem falar na eterna provocação entre Irã e EUA, ou Israel e todo o mundo árabe. Numa Guerra Civil grupos de pensamento ou ideologia diferentes dentro do mesmo país brigam entre si e essa briga se torna tão intensa, tão impossível de se conciliar que chega às vias de fato, com a guerra armada. 

Por que a Síria está em Guerra Civil?
Tudo começou em março de 2011, quando um grupo de manifestantes em Deera, no sul da Síria, pediu a libertação de 14 estudantes presos por terem escrito num muro "as pessoas querem a queda do regime", lema dos revolucionários na Tunísia e no Egito. Naquela época as pessoas queriam apenas um pouco mais de liberdade para expressar sua opinião. Só isso. O governo sírio deu uma resposta exageradíssima aos protestos até então totalmente pacíficos: forças do governo abriram fogo contra os manifestantes, matando quatro pessoas. No dia seguinte, no momento do funeral dessas quatro vítimas, o governo abriu fogo novamente, matando mais uma pessoa. Essa reação desproporcional do governo, ao invés de combater os protestos, acabou impulsionando ainda mais pessoas, que agora se reuniam não só em Deera, mas também em Baniyas, Homs e na periferia de Damasco, a capital do país. Esses protestos acabaram se tornando em guerra entre as forças do Governo sírio e os manifestantes, chamados de "rebeldes". 

Mas o que os rebeldes querem?
No começo queriam apenas um sistema político mais democrático. A medida em que a reação do governo foi ficando mais intensa, as pessoas começaram a pedir a saída do presidente sírio.

E por que essa gente quer tirar o presidente? 
Bashar Al Assad, o presidente sírio e o cara fofinho da foto acima, está no poder desde 2000, ou seja, há 13 anos. Isso sem falar que ele recebeu o poder de seu pai, que governou a Síria por 30 anos. A Síria é hoje uma propriedade de família, onde os Assad mandam e desmandam desde há muito tempo.

Mas se o Assad pai ficou 30 anos no poder e o Assad filho já estava há 11 antes de os protestos iniciarem, por que só agora vieram se revoltar?
A Síria é mais um dos países que se inspiraram na Primavera Árabe, que começou em 2010 na Tunísia. É assim: não e só a Síria que tem um governo que passa de pai para filho. Era assim em quase todos os países árabes. As pessoas começaram a se revoltar e pedir que isso acabasse. Deu certo na Tunísia, no Egito (mais ou menos...), no Líbano. Esses países também tiveram altos conflitos internos, mas duraram menos tempo. 

Mas por que os protestos deram certo nos outros países e não deu até agora na Síria?
Primeiro porque o Assad não larga o osso nem f*dendo. Segundo porque lá há pessoas que defendem o governo sírio com unhas e dentes, tipo uns jornalistas progressistas que a gente vê por aí... Só que aqui no Brasil o conflito fica só nas palavras. Um chama o jornalista da Globo de "negro de alma branca", o outro chama o presidente de "minha anta" e fica só nisso. Lá os rebeldes se armaram e enfrentaram o governo. O governo, que já vinha metralhando os manifestantes há tempos, resolveu intensificar o combate. Aí deu a m*rda que deu. 

Mas o presidente da Siria até agora não fez nada pra resolver isso?
Pois é, ele até tentou, no início, fazer algumas mudanças. Anunciou uma reforma política que abriu espaço para mais partidos além do oficial do governo concorrerem nas eleições e deu anistia a vários presos políticos. Mas para os rebeldes isso foi pouco. 

E quem são esses rebeldes?
Aí está outro problema: a oposição na Síria nunca teve muita força, algo meio parecido com o que se vê no Brasil hoje... Tanto que os protestos por mudanças partiram de ativistas independentes. A oposição, que precisava da forcinha de alguém, viu aí a oportunidade de fazer frente ao governo de Assad. Essa oposição, aliada aos manifestantes, criou o Conselho Nacional Sírio, uma tentativa de organizar os protestos, para que não ficasse mais bagunçado do que a coisa já estava. O problema é que quem está organizando esse Conselho é a Irmandade Muçulmana, de origem sunita e perseguida pelo presidente atual desde sempre, mas que não é muito bem vista no resto do mundo. Só pra ter uma ideia, a nova confusão do Egito que culminou com a deposição do presidente eleito girou exatamente sobre essa Irmandade Muçulmana. E é por causa da presença dessa Irmandade é que o Conselho Nacional Sírio não consegue se unir. Enfim, os opositores, além de brigar contra o governo, brigam entre si. 

Quem apoia o governo sírio?
Os alauítas, etnia árabe de onde vem o atual presidente, e os cristãos sírios. Só que juntando todos os cristãos e todos os alauítas do país não se chega a 10% da população. São a minoria, mas que tem ao seu favor todo o peso militar do Governo. 

Então tem mais coisas em jogo?
Infelizmente, sim. Além do desejo de democracia sólida de pessoas bem intencionadas, há um jogo de interesses políticos da parte de partidos de oposição. A Irmandade Muçulmana é louca louquinha pra assumir o governo sírio e tornar um país uma república islâmica, por mais que negue isso, e viu nesses protestos sua chance de ouro. Os cristãos, aliados do governo, temem um possível governo muçulmano e uma perseguição que certamente aconteceria, se a Irmandade chegasse ao poder. Além disso tudo está a interminável guerra de etnias que mata pessoas desde que o mundo é mundo. Alauítas contra sunitas e por aí vai. Sem falar que nessa guerra toda quem está dando o ar da graça é a simpática e bonitinha Al Qaeda, aquela do nosso amigo Bin Laden. A Al Qaeda é de origem sunita, a que está lutando contra o governo, e os terroristas viram nesses protestos uma boa oportunidade de chegar ao poder e aumentar sua influência no mundo árabe para cumprir sua missão no mundo: derrubar torres nos EUA. 

E os outros países não vão fazer nada?
Pois é, é isso que está em discussão no momento. Quem teria autoridade pra fazer alguma coisa é a ONU, mas ela ficou numa saia justa porque de um lado dela estão os EUA, simpáticos aos rebeldes, e do outro China e Rússia, que são aliados do governo sírio desde sempre. Se apoia um arruma intriga com o outro. E na boa: arrumar intriga com os EUA ou com a Rússia pode ser o início do fim.  

Por isso os EUA querem atacar a Síria?
Mais ou menos. Devido a essa omissão proposital da ONU os EUA resolveram fazer alguma coisa por conta própria. O problema é que a gente já sabe a forma dos EUA de resolver conflitos: matando milhares de inocentes pra dizer que o governo tem que parar de matar inocentes. Assim foi no Afeganistão e no Iraque. E assim será na Síria, se eles realmente atacarem o país. Pior: se os EUA resolverem mesmo partir pra cima a Rússia, aliada de Assad, já prometeu ajudar o amigo sírio e armar o governo para se defender dos EUA. Aí a coisa, que já tá feia, vai ficar pior ainda, se é que dá pra piorar. Ah, os EUA dizem também que querem atacar a Síria para impedir o governo de usar armas químicas.

Bem lembrado. O que são essas armas químicas? O que é o tal gás sarin?
Em Dirahian, próximo a Chanasir, o governo sírio mantém uma base de testes de armas químicas, de destruição em massa. O sarin é um neurotóxico de alto poder letal que, quando respirado, vai para a corrente sanguínea e bloqueia a respiração, causando parada cardiorrespiratória em seguida. Aí e só esperar a morte. O uso desse e de qualquer outra arma química é proibido pela ONU e considerado crime de guerra. Acontece que alguém usou esse tal gás há alguns dias, ocasião em que milhares de pessoas morreram. Tudo leva a crer que tenha sido o governo quem usou o gás contra os rebeldes. 

Quando e como isso vai acabar?
Boa pergunta! Só quem sabe é Deus, ou Allah, ou o nome que se queira dar. Os rebeldes só param quando o presidente sair. Assad já disse várias vezes que não sai do governo. Ambos lutam ferozmente um contra o outro. Enquanto isso tem muita gente morrendo, gente que não tinha nada a ver com o peixe, sem falar nos que tem que fugir do país. Só nos resta acompanhar as notícias e torcer pela Síria. 
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