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Entrevista com Ivan Valente (@dep_ivanvalente)


Ivan Valente, 56 anos, é professor, engenheiro e deputado federal pelo PSOL de São Paulo. Iniciou a carreira ainda jovem em movimentos estudantis, foi atuante contra a Ditadura Militar. Participou da fundação do Partido dos Trabalhadores, e foi eleito deputado estadual em 1987 e 1991. Em 1994, substituindo Florestan Fernandes, foi para a Câmara Federal. Em 2005 mudou-se para o PSOL (Partido do Socialismo e Liberdade), partido do qual fazem parte nomes importantes como Heloísa Helena, Chico Aencar e Luciana Genro, e se elegeu deputado federal em 2006 com mais de 83 mil votos. É conhecido pela sua oposição ao governo Lula, pricipalmente na política econômica.

Em meio a uma campanha movimentada, Ivan Valente reservou um tempinho para falar ao Blog Novas Ideias sobre sua atuação na Câmara, suas ideias sobre política, imprensa, e suas propostas de campanha.

Por Wesley Talaveira


O Sr. iniciou sua militância política num momento da nossa democracia ao mesmo tempo delicado, por causa da ditadura, mas também um momento em que muita gente de ideias firmes manteve-se atuante. Comparando aquele tempo com o atual, acha que nossa sociedade ainda continua atuante, militante como nos tempos da ditadura, ou acredita que o brasileiro tem se alienado das discussões políticas? Por que?
É difícil comparar o envolvimento da população na militância política em contextos tão diferentes. Naquela época, lutávamos pela liberdade e pela democracia, valores que naturalmente atingem um número maior de pessoas do que, por exemplo, a luta pela desigualdade social, que tanto defendemos hoje. Por outro lado, hoje as pessoas tem mais acesso à informação e podem, se assim desejarem, encontrar uma infinidade de instrumentos de luta para defender seus ideais. O problema é que, num país como o nosso, de grande concentração de renda, terra, riqueza e poder, políticas sociais de baixa intensidade têm um efeito considerável de conformação social, e é isso o que vemos neste momento eleitoral, em que o governo aposta no mote continuísta. A falta de um forte movimento social e a desmobilização da força social de mudança, que ocorreu no último período, aliadas à fragmentação e ainda pouca expressão de outras candidaturas de esquerda, realçam o quadro de dificuldades de uma alternativa verdadeira de esquerda acumular rapidamente na direção da real transformação social – e de envolver o povo nesta luta. Ou seja, apesar da dura realidade das condições de vida da maioria do povo brasileiro, não há um processo de indignação organizada em marcha. Os partidos políticos não têm dado conta desta tarefa, ou por opção ou por falta de condições objetivas e também erros de avaliação. É preciso levar em conta o nível de organização e consciência real dos trabalhadores, se engajar nas lutas que movimentam o povo em torno de direitos e, num processo pedagógico de luta, mobilização e organização, atingirmos um patamar de pressão social capaz de viabilizar mudanças sociais sempre prometidas e nunca realizadas em nosso país.


O Sr. tem historia dentro do PT. Ajudou a fundar o partido e participou da Direção por algum tempo. O que o levou a sair do partido e ir para o PSOL?
Durante 17 anos fui membro da Direção Nacional do PT. Foi em respeito à coerência e ao compromisso com os interesses dos trabalhadores e das maiorias nacionais, que sempre marcaram nossa atuação partidária, no parlamento e na sociedade, que decidi sair do PT. Ainda no partido, combatemos duramente a política econômica do governo Lula. Travamos uma batalha sem tréguas para que Lula cumprisse as promessas de campanha e não frustrasse as expectativas de mudanças geradas na sua eleição. Em 2003, primeiro ano do governo, fui um dos proponentes do Manifesto “Mudanças, Já!”, assinado por 29 parlamentares petistas. Neste mesmo ano, combatemos a Reforma da Previdência pelo seu caráter de ataque aos direitos dos trabalhadores, desfiguração do papel do Estado e abertura de mercado para os Fundos de Pensão privados. Fui punido pela Direção Nacional do PT por não ter votado a favor da Reforma.
Em 2004, organizamos o seminário “Queremos um Outro Brasil”, que reuniu 15 deputados federais petistas em São Paulo e elaborou um documento alternativo de política econômica que foi entregue ao governo. Em junho deste ano, novamente fui punido pela Direção Nacional do PT. Desta vez, o motivo foi ter me recusado a votar na proposta do governo para o salário mínimo, votando por uma proposta de aumento maior e condizente com a necessidade de um esforço pela recuperação do salário mínimo como mecanismo de distribuição de renda no Brasil. Em 2005, um novo Seminário em São Paulo lançou oficialmente o Bloco Parlamentar de Esquerda da bancada petista, criado para ser contraponto às políticas neoliberais do governo. Nos comprometemos a não votar em hipótese alguma propostas que significassem ataques aos direitos dos trabalhadores.
Em maio daquele ano, assinei, acompanhado pela maioria dos deputados do Bloco de Esquerda e pelo senador Eduardo Suplicy, o pedido de instalação da CPMI dos Correios. Vieram à tona as primeiras denúncias envolvendo o governo Lula. O apoio à CPMI partiu da constatação de que um governo petista não poderia esconder os fatos e precisava enfrentar a opinião pública punindo os responsáveis por atos ilícitos. O PT sofreu acusações cada vez mais intensas de atos de corrupção. A militância assistiu desnorteada ao descortinar de fatos envolvendo dirigentes nacionais do partido. Neste ano, fui candidato a presidente estadual do PT de São Paulo, junto com o companheiro Plínio de Arruda Sampaio para presidente nacional – ambos apoiados pela Chapa Esperança Militante. A chapa defendia punição a todos os envolvidos em atos de corrupção e mudanças imediatas na política econômica.
Apesar do expressivo apoio obtido no Processo de Eleições Diretas, os votos não foram suficientes para derrotar o chamado Campo Majoritário do PT, o mesmo setor responsável pelas alianças espúrias, pela condução do partido nos últimos anos e de cujo quadro faziam parte os dirigentes envolvidos em corrupção. Predominaram nas eleições interna o voto de cabresto, as máquinas de prefeituras, do governo e dos mandatos, que condicionaram o voto de parte expressiva dos filiados petistas. Após um amplo debate com os apoiadores do mandato e com setores expressivos da esquerda socialista brasileira, tomamos a decisão de sair do PT e ingressar no PSOL.


No primeiro programa de Governo apresentado pelo PT ao TSE, estava o “controle social da mídia”, e recentemente o ex-deputado cassado José Dirceu disse que o problema do Brasil é o “excesso de liberdade” da imprensa. Como vê a atuação da imprensa brasileira? Seria a favor de algum tipo de controle?
A imprensa brasileira é livre e assim deve continuar. As afirmações feitas recentemente – que, na verdade, repetem um filme que vimos nas últimas eleições – de que há iniciativas autoritárias do governo para controlar os meios de comunicação não passam da manifestação de setores conservadores da nossa sociedade que não admitem a existência de qualquer tipo de regra para o funcionamento da mídia. Regra, no entanto, é muito diference de censura. Respeitar a nossa Constituição está muito longe de restringir a liberdade de imprensa no país. O que tem acontecido é uma distorção proposital do conceito de liberdade de expressão para formar a opinião pública brasileira contra qualquer iniciativa de garantia de que os meios de comunicação cumpram o que estabelece nossa Carta Magna. E é isso o que nós defendemos: o respeito à Constituição brasileira, que estabelece, entre outros pontos, a proibição do monopólio nos meios de comunicação, as prioridades que as concessões de rádio e TV devem seguir, o direito de resposta àqueles que se sentirem ofendidos pela mídia, a existência de um sistema público de comunicação forte, etc. Neste sentido, o controle social é uma bandeira histórica de setores da sociedade brasileira que sempre se sentiram excluídos, estigmatizados ou silenciados pela nossa grande mídia. Este controle não tem absolutamente nada a ver com censura. Trata-se da criação de mecanismos de regulação dos canais de rádios e televisão (portanto, de concessões públicas) que possam agir diante do descumprimento das regras existentes para o setor por parte dessas emissoras. Trata-se de um monitoramento que se faz a posteriori, e que existe no caso de outras concessões públicas no Brasil e também com a radiodifusão em dezenas de outros países, como a Inglaterra, França, Alemanha e também vizinhos nossos da América Latina. Como quem combateu e sofreu na pela as conseqüências da ditadura militar, nunca defenderia a volta da censura em nosso país. Mas o controle social é muito diferente disso. É algo necessário para que a pluralidade e a diversidade de nosso país estejam, de fato, representadas e respeitadas pelas concessões de rádio e TV.

Como vê o papel da internet nessas eleições? Acha que a internet teria força para superar a campanha televisiva?
A internet tem sido um espaço fundamental para a promoção dessa diversidade de idéias e opiniões no momento eleitoral. Nossa campanha, por exemplo, tem feito um diálogo permanente com a população não só nas ruas de São Paulo, mas também através de nosso site, twitter, face book, nossa página no flickr, etc. No entanto, ainda estamos longe de superar, pela rede mundial de computadores, o impacto da televisão no processo eleitoral. Apesar do acesso à internet crescer rapidamente no país, cerca de metade da população ainda não pode ser considerada usuária freqüente da internet. E muitos que têm acesso ainda o fazem privilegiando o acesso a sites de relacionamento e troca de emails. A busca por informação diferenciada e plural ainda é minoritária na rede. Mas estamos avançando. Para nós, que recusamos as campanhas milionárias e não aceitamos doações de banqueiros ou empreiteiras – porque o alto preço dessas doações é cobrado depois dos governantes e parlamentares eleitos –, a internet será cada vez mais importante.

O que o Brasil pode esperar de Ivan Valente na Câmara?

Pode esperar a coerência, a ética na política e a continuidade das lutas que historicamente travamos no Parlamento brasileiro. No último período, por exemplo, nosso mandato atuou prioritariamente na luta pela mudança do atual modelo econômico, que privilegia interesses do capital financeiro, dos monopólios e das grandes corporações, em detrimento do social e das maiorias excluídas do país. Foi nossa a iniciativa de instalação da CPI da Dívida Pública, que investigou contratos que são lesivos aos interesses nacionais, que, só no ano passado, destinaram 380 bilhões de reais para pagamento de juros e amortizações dos serviços da dívida, correspondendo a 36% do orçamento da União, enquanto que para a saúde foram destinados 5% e à educação 3%, ou seja, uma nítida demonstração de que os bancos são os grandes beneficiários do atual modelo. Além disso, atuamos de forma destacada na Comissão de Relações Exteriores, na defesa da educação pública, dos direitos humanos e contra as propostas de rebaixamento da atual legislação ambiental, enfrentando o lobby da bancada ruralista na Comissão Especial que analisou as mudanças do Código Florestal Brasileiro. Em nossa página da internet é possível encontrar outros projetos e iniciativas de nossa autoria: www.ivanvalente.com.br. Daremos continuidade a essas lutas, que estão longe de terminar.

Qual mensagem deixaria aos leitores (e eleitores) do Blog Novas Ideias?
Agradeço muito o espaço e deixo uma última reflexão. Queremos que nosso mandato continue sendo um espaço para aqueles que não se conformam com o discurso do possível. Fizemos uma campanha com o trabalho voluntário e generoso de gente consciente, que concorda com o nosso projeto. Queremos muito continuar este trabalho e fortalecer a luta por transformações. Nossa candidatura tem encontrado grande receptividade, pelo trabalho realizado, pelo reconhecimento de nossa trajetória, pela conduta transparente e coerente. Mas para garantir a conquista de um novo mandato, enfrentando o poder econômico e as dificuldades particulares do estado de São Paulo – onde, para eleger o primeiro deputado, um partido necessita de mais de 310 mil votos –, será preciso multiplicar ainda mais nossa campanha nesta reta final. Peço então o apoio dos leitores do blog. Visitem o nosso site, conheçam as nossas propostas e, se concordarem com elas, dêem um voto de confiança pela continuidade do nosso mandato. O Brasil precisa de parlamentares compromissados com o interesse público, porque, acreditem, pior do que está fica.

Um comentário:

Anônimo disse...

As Novas Ideias Políticas do Brasil atual são o Projeto Novo e Alternativo de Brasil e de Política-partidária-eleitoral (PNBC-ME), que representam a reinvenção do Brasil e dos partidos, com a democratização das eleições, como propõe a RPL ( Revolução Pacífica do Leão ). O diabo é que a CONFUSÃO histérica e estéril das ruas torna pardo todos os gatos.E o que se pretende colocar no lugar disso que aí está e sempre esteve, tal seja os modellos de estado, república e de política-partidária-eleitoral tipo triângulo das bermudas com prazo de validade vencido há muito tempo, geridos por versões muitíssimo piores tais como golpes, ditaduras,marchas de insensatez, retrocessos, etc. e tal ? Eis a questão. Aliás, descer a picareta e partir as pedras é muito fácil,o difícil é uní-las e fazer das mesmas um inteiro harmônico. O que colocar no lugar da situação ? A oposição ? O velho golpismo-ditatorial patrocinador da violência e confusão nas ruas ? Ou terá chegado de fato a hora do Novo Caminho de Verdade para o Novo Brasil de Verdade, com paz, amor, perdão,conciliação, união e mobilização pela Mega-Solução, como propõe o HoMeM do Mapa da Mina do bem comum do povo brasileiro, com a RPL-PNBC-ME, porque evoluir é preciso ? Por Luiz Felipe

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